segunda-feira, 27 de abril de 2015

AOS OLHOS DO PAI DA NOIVA


Era um dia especial, eu não podia negar. O sol chegou cedo e se manteve alto e quente durante a manhã. O dia perfeito para um casamento. Todos correndo para cá e para lá, sorrisos ansiosos, rostos sérios e preocupados com a organização do dia perfeito para minha filha.
Para mim era tudo fácil, eu só precisaria buscar o bolo, usar o terno que minha esposa supôs ser o melhor terno de todos para o pai da noiva e... dar minha filha em casamento. Dar a mão de minha princesinha para um cara que eu mal conheço foi um desafio e tanto. Lembro-me do modo como suava frio durante o dia todo, eu estava nervoso.
Enquanto Sofia acertava a conta do bolo, eu a esperava no carro. Observava de longe aquela garota alta e miúda, que se tornara mulher tão rápido e aos meus olhos ainda era a menininha do pai. Que hoje não usa penas o batom da mãe, mas tudo que se possa usar. E poxa como ela esta linda!
O tempo passou tão rápido que eu não me dei conta de quando ela largou as bonecas pelos rapazes. Mas lembro de como tentei ser duro e confesso, chato ao dizer-lhe "não" para suas baladinhas juvenis. Sempre queremos o que é melhor para nossos tesouros e achamos que o melhor é ser duro por mais doloroso que seja dizer "não" a um filho.
Sofia passou o dia sorrindo, ansiosa pelo seu momento do "eu aceito" e do beijo. Mesmo com seus vinte dois anos, acreditava em finais felizes, em felicidade conjugal sem brigas, como se o amor fosse forte o bastante para superar qualquer obstáculo. Ainda era uma menina inocente.
Nas lembranças que guardo, sempre duvidei do noivo. Ele era um cara bacana, ele a amava e tinha um bom emprego. Mas ele estava levando embora o meu motivo de viver, e qualquer pai que se preze duvida de um homem que quer levar sua filha embora de casa.  A vida segue, e minha Sofia estava dando rumo a sua futura família. Enquanto isso, eu digeria a ideia.
Deixei minha filha no salão com minha esposa e fui buscar o terno. Encontrei o noivo, Marcelo, ansioso, sorridente, com os mesmos sonhos e expectativas que minha filha e por um leve e, brevíssimo momento, não o vi como "o homem que levaria embora minha princesa". Ele cumprimentou-me com um abraço e eu lhe devolvi com um tapinha nas costas. Os pais devem manter as aparências de durão mesmo que o cara a ser marido de sua filha seja bacana e sua mulher ache que é uma bobagem ser tão machão. Mas seja. Depois de buscar o terno, convidei Marcelo para tomar um chopp antes da cerimônia, e disse que não havia problemas o noivo acalmar os nervos antes do grande "sim". Levei ele a um boteco antigo da cidade, aquele do qual eu tomei muitos porres, daquele do qual se vê um jogo de futebol com os amigos e xinga alto, ou mesmo o que devemos levar o noivo da filha para dar um aviso prévio do que espera eles se pisarem na bola. Mas mesmo com essa brabeza toda, eu só disse para fazê-la feliz, pois ela o ama e eu espero que ele seja merecedor desse amor todo. E compartilhei o como ela é adorável, mesmo que ele já soubesse disso. Tomamos mais um chopp e fomos para a cerimônia.

CONTINUA...

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